** Leia o texto antes de comentar! Só assim irá entender, tem gente me julgando antes de ler.**
Sair em ruas, avenidas, em plena madrugada fria. Subir em casas, prédios, sentir a sensação de ser pego a qualquer minuto e levar uma surra ou um banho de tinta da polícia, ou até mesmo do próprio morador do local, mas sempre deixando sua marca lá, para que outros possam ver. Essas são umas das sensações que um pichador tem.

Mas porque eles fazem isso? Pelo prestígio de ser reconhecido por outros pichadores? Por acharem que suas letras e significados são dignos de uma arte proibida? Ou por estarem revoltados com algo e quererem “descontar” sua revolta em paredes?
R: Um pouco de cada coisa, cada um tem seu motivo. Creio eu que o último desses motivos seja essa revolta que a mídia toda diz.
Eu, como um “ex pichador”, sou meio suspeito para criticar ou dar alguma opinião lícita sobre eles, mas uma coisa eu posso fazer muito bem, e essa coisa é relatar.
Só quem já fez, sabe como é essa sensação. Por mais que seja totalmente proibida, é algo diferente.
Muitos não conseguem ter o reconhecimento na escola, no bairro, nem em sua própria casa. E acham na pichação um meio para ser “popular”. Eu particularmente pichava por causa da adrenalina, e é claro que o reconhecimento era conseqüência .
Vocês devem estar se perguntando: “Ué, se gostava tanto, porque parou?”
Hoje sairei um pouco do contexto do meu blog, e contarei uma história particular minha, assim saberá o porque do fim de meus dias como pichador.
Entre meus 15 até meus 18 anos, minha maior paixão era pichar.
Pichava casas, vielas, portões, onde tivesse um espaço e fosse um lugar bom, eu estava pichando. Eu nunca achei a pichação uma arte, se fosse arte não seria proibido, eu gostava da adrenalina que a pichação me passava, e fazia isso por gosto e não por revolta ou outras coisas do tipo. Por causa disso fiquei bem conhecido entre os pichadores do ABC Paulista...
Um certo dia, eu e meu amigo de “role de pichação” (Diego) saímos para uma baladinha. E estava combinado que quando voltássemos eu e ele ficaríamos em minha casa, esperaríamos o sol nascer, e bem de manhãzinha iríamos fazer uma pichação no muro lateral de uma faculdade aqui em Santo André (IESA). O muro é limpinho e enorme, todos queriam pichar lá.
Quando deu 6 horas da manhã, pegamos nossas coisas e fomos lá. O que seria nossas coisas?
4 litros de tinta automotiva verde. (linda por sinal, brilhava demais!)
1 rolo daqueles grandes, de pintar parede de casas. (Não sei o nome do rolo exatamente, mas é aquele maior)
Uma camiseta velha para limpar as mãos.
2 litros de água para lavarmos as mãos.
Chegando lá, o primeiro a fazer foi eu, fiz minha pichação, e passei a tinta e o rolo para o Diego, ai ele fez a dele.
Paramos e ficamos olhando nossa “obra de arte”, admirando as mesmas.
Mas quando olhei bem, vi que uma letra estava uns 8 cm menor, ai fui lá arrumar. Não sei pra que fui fazer isso...
Enquanto arrumava, passou um carro de polícia, e lá passava carros raramente, principalmente de manhã, ai eles pararam, deram a ordem para encostarmos na parede. Encostamos, nos revistaram, não tínhamos nada. Só a tinta que estava a uns 4 metros de nós.
Ai um deles pediu para que eu virasse, quando virei, não vi nada! Só senti a mão dele no meu rosto, se tivesse aquela super câmera filmando, dava pra ver minha boca ficando torta com o tapa no rosto rs. Foi um tapa em cada lado do rosto, ai esse mesmo policial foi bater no Diego, e o Diego não começa a chorar!? ¬¬.
Aí o policial ficou com dó dele, e bateu mais ainda em mim, vários tabefes, e eu lá firme, com as mãos para trás, e a cabeça erguida.
Se não bastante bater em mim, eles pediram para que tirássemos a roupa (ficássemos de cueca, que isso fique bem claro rs), e que um daria um ”banho” de tinta no outro.
Lembro-me até hoje, o Diego pegou uma garrafa (rindo ainda por cima) e derramou a tinta em minha cabeça, a tinta pegou em meus olhos e começou a arder, e eu comecei a gritar dizendo que ardia muito, ai um dos policiais pegou a camiseta velha que levamos para limpar as mãos e limpou meu olho.
Ai foi minha vez de dar o “banho” no Diego, só porque ele riu quando foi jogar a tinta em mim, eu peguei o rolo que usamos cheio de tinta, e passei no suvaco dele. rs
Ficamos todo pintados, os &%$#& dos policiais ainda tiraram foto com o celular e falaram que colocariam na internet. (procurei muito essa foto e não achei)
Ai eles deram a ordem para nós sairmos de lá, fomos para a minha casa, parecendo dois “Hulk’s”, ficamos 3 horas com a tinta no corpo, até abrir alguma loja (era Sábado) para comprarmos um removedor. Quando a loja abriu, minha irmã que tinha acabado de acordar, e por sinal riu muito da gente, foi lá e comprou o removedor. Tiramos a tinta do corpo, e eu sentia que meu olho esquerdo estava dolorido, quando eu olho no espelho...Ele estava bem roxo, foi o primeiro "tapa" do policial que fez isso.
Ai comentamos um com o outro: “Ah, pelo menos fizemos o role lá, e todo mundo vai comentar”.
Quando olhamos da minha janela (dava pra ver o muro da faculdade no prédio em que eu morava), alguém da faculdade tinha PINTADO O MURO, e nossa pichação tinha SUMIDO!
Puts, quase choramos, não conseguíamos nem falar nada!
Depois desse dia prometi que nunca mais picharia em toda minha vida, e era minha maior paixão naquele momento...
Promessa cumprida, nunca mais pichei.
Agora, mais maduro, com a “cabeça no lugar”, vejo que isso é apenas molecagem.
Um passatempo para os adolescentes terem seu “ibope”, serem “famosos”, e etc. É claro que não apoio mais esse tipo de "crime", mesmo sendo um conhecedor profundo do tema, sei que isso SUJA nossa cidade ainda mais, e a deixa cada vez menos bonita.
Ás vezes eu paro e penso, “E se aqueles policiais não tivesse pego a gente, será que eu continuaria nesse mundo?”
Não sei! Por isso que HOJE, eu “agradeço” por ter apanhado e levado um banho de tinta.
Não me arrependo de já ter feito isso, só não faria de novo. Acho que não vale a pena arriscar sua vida subindo em prédios, casas, apenas para ter sua marca lá.
Hoje sou a favor do Não-Vandalismo, e de uma cidade mais limpa e consequentemente mais bonita. Mesmo não recriminando aqueles que continuam fazendo esse tipo de coisa.
PS: A mídia passa para nós telespectadores que pichadores são só favelados, negros, e etc. E isso é a mais pura mentira! Existe todo tipo de pichador, de toda etnia, e de todas as classes sociais. ;)
E se prestarem atenção no meu texto, em nenhuma parte citei o nome "Graffiti", não confunda uma coisa com a outra.
Mas e vocês, o que acham da pichação?
Uma arte proibida?
Ou uma revolta consumida?
Abraços.
Vinicius Gabriel.
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